segunda-feira, 23 de setembro de 2013




DESCOBRIMENTOS

Quando os portugueses partiram para os descobrimentos, é óbvio que não sabiam o que iriam encontrar.
Mas mais complicada ficou a situação do resto do mundo, que foi encontrado sem pedir, e que veio a descobrir que tinha sido descoberto... pelos portugueses!!!

Custou foi começar, mas desatamos a navegar e foi um tal descobrir terras longínquas cheias de oportunidades. O jeito que isso dava agora...

Isto foi mais ou menos assim:

Chegávamos a uma terra longínqua e... "ha, ha... descobri-te, estavas aí escondida, mas nós estamos a ver". E assim sucessivamente, por tudo quanto era sitio. E os povos que viviam nessas terras descobriram que nós, os portugueses, os tínhamos inventado ali naquela hora e  ficaram maravilhados, porque pensavam que já existiam, mas não. Nós é que os descobrimos. E não foi nada fácil, porque os GPS dessa época eram intuitivos... ia-se para onde a intuição nos levasse e depois via-se.

No início, os descobridores oriundos da Lusa Pátria foram bem recebidos, porque entraram com ofertas aos nativos, de tudo quanto havia em Lisboa, desde escovas de cabelo a talões de descontos e promessas de eleições. A seguir, explicaram também aos nativos, que eles seriam muito mais felizes se obedecessem a um Rei português e se se convertessem à fé no Deus que lhes tinha enviado os portugueses para tão grandiosa missão.

Os nativos que acreditaram na nossa conversa, foram batisados. Os outros, foram amaciados com os mais diversos mimos, em nome de Deus e do Rei, até acreditarem. Era assim. Os descobridores não tinham lá muita paciência, nem apreciavam a ideia de serem contrariados.

Com o passar do tempo e à mistura com outros europeus do mesmo campeonato, mas de barba menos rija do que a barba Lusitana, começamos todos a traçar fronteiras e a fazer divisões, como se o planeta fosse um chocolate... "este quadradinho é para mim, aquele é para ti... e ainda bem que aparecemos, senão este mundo nem desenvolvia..." pensou-se.

Ficamos tão satisfeitos com o lucro das nossas proezas e gostamos tanto dos aprazíveis climas das terras que descobrimos, que fomos ficando, com a desculpa que, ainda havia mais por fazer, que já todos se tinham habituado à ideia e que por lá o marisco era mais barato. Isto durou uns quantos séculos, até ao dia em que o preço do marisco se tornou impraticável...

De qualquer maneira, alguém tinha que dar novos mundos ao mundo, descobrindo-os, está claro. E para descobrir coisas fora de casa, estamos cá nós, e que não nos falte força na... alma (chamemos-lhe assim).

Ao ver o resultado disto quinhentos anos depois, acho que foi uma pena não termos esperado pela chegada da Internet. Iríamos acabar por descobrir tudo numa rede social qualquer, as descobertas teriam sido muito mais pacificas, não teríamos tido cinco séculos de arrelias e ainda poderíamos colocar um Like no perfil dos Descobrimentos.

C.Cruz.    


 


sexta-feira, 13 de setembro de 2013




A IRRACIONALIDADE DA INTELIGÊNCIA

Quando a vida inteligente surgiu, os irracionais ficaram com um misto de pavor e estupefação.
Onde é que o Criador estaria com a Cabeça? Sim, Cabeça com maiúscula, porque é preciso uma grande Tola para gerir a confusa organização que a existência de vida proporciona.

Então vamos lá ver: a inteligência revela-se nas duas faces da mesma moeda, criou a ciência e o desenvolvimento e cultivou valores como a paz, o amor a solidariedade e muitas outras coisas espantosas, mas, por outro lado, também incentivou o ódio, a guerra, a inveja, as diferenças religiosas, o apego aos bens materiais, a vaidade... enfim, prefiro ser inteligente, mas dá cá uma trabalheira... a moeda tem duas faces, mas roda a uma velocidade tal, que é preciso estar atento para não confundir os lados.

No que diz respeito aos irracionais, a coisa é mais simples, têm um instinto de sobrevivência que é inato e tem regras próprias do género "anda cá que estamos em época de acasalamento" ou "anda cá que estou com fome e vais morrer" ou "foge que abriu a época da caça e vem aí um inteligente com uma espingarda nas mãos".

Já os inteligentes como nós, são mais do género "anda cá que estamos em época de acasalamento" ou "vamos lá que estou com fome e vou comer um irracional" ou "fujam que abriu a época da caça e eu sou um inteligente com uma espingarda nas mãos que vai disparar contra um irracional".

Só por este simples exemplo, é possível avaliar perfeitamente o abismo que separa os irracionais dos racionais. Enquanto os primeiros acasalam, matam para comer e fogem dos inteligentes, os outros acasalam, matam para comer e perseguem os irracionais (?).

A inteligência desta conclusão não altera a irracionalidade dos fatos, mas dava jeito que a irracionalidade dos fatos fosse alterada pelas conclusões da inteligência, ou melhor, que a racionalidade dos atos alterasse a irracionalidade dos fatos.

Vale a pena pensar nisto: racional é aquele que possui a faculdade de raciocinar, que faz uso da razão. Atribui-se esta caraterística aos humanos por se ter determinado que estes são seres pensantes e por isso, capazes de fazer uso da razão que o raciocínio proporciona. Irracional é o contrário. Parece simples, mas na realidade, não é. Basta pegar no seguinte exemplo:

Nos jardins zoológicos, esses espaços onde os animais estão expostos ao olhar analítico dos humanos, é difícil perceber de que lado está a irracionalidade. Nestes locais, as pessoas têm comportamentos estúpidos, ficam especadas a olhar para os bichos, produzem sons aparvalhados para tentar comunicar com eles, como se estivessem na presença de extraterrestres, e ainda por cima, saem de lá todos contentes com a figurinha que fizeram à frente dos filhos. É uma coisa reveladora da nossa superior inteligência. Ou não. Ou talvez seja a nossa vontade secreta de regressar às nossas mais remotas origens.

Cá por mim, há muito tempo que cheguei à conclusão que, os zoológicos não são apenas os locais onde os humanos podem observar animais, mas sim os locais onde os animais podem observar o estranho comportamento dos humanos, que ficam todos contentes e de consciência tranquila por darem uns amendoins aos bichinhos. E ainda comunicam telepaticamente com os eles:

"Tomem lá este amendoim e não digam que não sou vosso amigo, ouviram? Aliás, sou tão vosso amigo, que até paguei só para vos ver e vim aqui ensinar os meus descendentes a terem os mesmos pensamentos nobres e racionais, porque, no vosso habitat natural, vocês seriam uns desgraçados..." É tão bom ser inteligente.

Felizmente, os bichos, na sua superior irracionalidade, nem respondem a mensagens telepáticas, nem estão para se cansar a tentar perceber os humanos. Têm uma vida para viver, sem complexos de inferioridade.
Afinal, a  inteligência não é um dom de quem a tem, é uma qualidade de quem a usa.
                                                                                                                                                 
C.Cruz.