sexta-feira, 13 de setembro de 2013




A IRRACIONALIDADE DA INTELIGÊNCIA

Quando a vida inteligente surgiu, os irracionais ficaram com um misto de pavor e estupefação.
Onde é que o Criador estaria com a Cabeça? Sim, Cabeça com maiúscula, porque é preciso uma grande Tola para gerir a confusa organização que a existência de vida proporciona.

Então vamos lá ver: a inteligência revela-se nas duas faces da mesma moeda, criou a ciência e o desenvolvimento e cultivou valores como a paz, o amor a solidariedade e muitas outras coisas espantosas, mas, por outro lado, também incentivou o ódio, a guerra, a inveja, as diferenças religiosas, o apego aos bens materiais, a vaidade... enfim, prefiro ser inteligente, mas dá cá uma trabalheira... a moeda tem duas faces, mas roda a uma velocidade tal, que é preciso estar atento para não confundir os lados.

No que diz respeito aos irracionais, a coisa é mais simples, têm um instinto de sobrevivência que é inato e tem regras próprias do género "anda cá que estamos em época de acasalamento" ou "anda cá que estou com fome e vais morrer" ou "foge que abriu a época da caça e vem aí um inteligente com uma espingarda nas mãos".

Já os inteligentes como nós, são mais do género "anda cá que estamos em época de acasalamento" ou "vamos lá que estou com fome e vou comer um irracional" ou "fujam que abriu a época da caça e eu sou um inteligente com uma espingarda nas mãos que vai disparar contra um irracional".

Só por este simples exemplo, é possível avaliar perfeitamente o abismo que separa os irracionais dos racionais. Enquanto os primeiros acasalam, matam para comer e fogem dos inteligentes, os outros acasalam, matam para comer e perseguem os irracionais (?).

A inteligência desta conclusão não altera a irracionalidade dos fatos, mas dava jeito que a irracionalidade dos fatos fosse alterada pelas conclusões da inteligência, ou melhor, que a racionalidade dos atos alterasse a irracionalidade dos fatos.

Vale a pena pensar nisto: racional é aquele que possui a faculdade de raciocinar, que faz uso da razão. Atribui-se esta caraterística aos humanos por se ter determinado que estes são seres pensantes e por isso, capazes de fazer uso da razão que o raciocínio proporciona. Irracional é o contrário. Parece simples, mas na realidade, não é. Basta pegar no seguinte exemplo:

Nos jardins zoológicos, esses espaços onde os animais estão expostos ao olhar analítico dos humanos, é difícil perceber de que lado está a irracionalidade. Nestes locais, as pessoas têm comportamentos estúpidos, ficam especadas a olhar para os bichos, produzem sons aparvalhados para tentar comunicar com eles, como se estivessem na presença de extraterrestres, e ainda por cima, saem de lá todos contentes com a figurinha que fizeram à frente dos filhos. É uma coisa reveladora da nossa superior inteligência. Ou não. Ou talvez seja a nossa vontade secreta de regressar às nossas mais remotas origens.

Cá por mim, há muito tempo que cheguei à conclusão que, os zoológicos não são apenas os locais onde os humanos podem observar animais, mas sim os locais onde os animais podem observar o estranho comportamento dos humanos, que ficam todos contentes e de consciência tranquila por darem uns amendoins aos bichinhos. E ainda comunicam telepaticamente com os eles:

"Tomem lá este amendoim e não digam que não sou vosso amigo, ouviram? Aliás, sou tão vosso amigo, que até paguei só para vos ver e vim aqui ensinar os meus descendentes a terem os mesmos pensamentos nobres e racionais, porque, no vosso habitat natural, vocês seriam uns desgraçados..." É tão bom ser inteligente.

Felizmente, os bichos, na sua superior irracionalidade, nem respondem a mensagens telepáticas, nem estão para se cansar a tentar perceber os humanos. Têm uma vida para viver, sem complexos de inferioridade.
Afinal, a  inteligência não é um dom de quem a tem, é uma qualidade de quem a usa.
                                                                                                                                                 
C.Cruz.      

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